27 Maio 2008

DO PÓ À CÁPSULA


Théodore Géricault, Têtes de suppliciés, 1818 (National Museum, Estocolmo)


Os anseios políticos dos poderosos
Vaidade

O final dos gastos onerosos
Maldade

O que levou a tal ato
Voracidade

O que falta confirmar do fato
Veracidade

A brutal imagem do resultado
Mortandade

O caminho seguido sem olhar ao lado
Leviandade

A pútrida carniça à míngua do pão
Dificuldade

A dureza da cápsula da solidão
Impermeabilidade

Diga-me quem sou senhor esteta
Individualidade

A féerica imaginação do poeta
Igualdade


© 2001

26 Maio 2008

PIORRÉIA


Monique Pans, Ville (www.moniquepans.net)


Quero um sorriso, ordenou o palhaço.

Mas a criança molhou de marrom suas calças
E se fez a diarréia.
Evacuem a diarréia!, esbravejou o palhaço

Mas o palhaço se acalmou
Pois chegou outra criança e sorriu
E esta não tinha diarréia, apenas piorréia

E então o palhaço exigiu que lhe dessem uma dentadura
E solicitou que não dessem mais pitanga nem beterraba às crianças
Pois não lhe agradavam gengivas avermelhadas nem arroxeadas.


© Maio 2008

19 Maio 2008

HOMENAGEM À HIPOCRISIA


Salvador Dalí, Butterfly Landscape (The Great Masturbator in a Surrealist Landscape with DNA), 1957-58

Felizes os hipócritas que conseguem sorrir
Enquanto eclode a guerra genocida
Admirados são aqueles que se fartam e se banham
Na corrente putrefata e malcheirosa
Que delícia e que olor!

Erguidos aos céus serão os mártires discípulos de T
E para cada tapinha na espádua, um passo garantido
Rumo ao Paraíso.

Sábios são os que se despem
e vestem o seu próximo ao Norte
e não se envergonham de estarem nus!

Tende sempre perfume convosco se constantemente vos fedem as axilas
Bebei urina se assim vos for pedido e tiverdes sede
Sorride, sede airosos, aprazíveis e galhofeiros
Quando brutalmente deflorado fordes.

E com estes ensinamentos meu filho,
Saberás com argúcia chegar onde sempre quiseste
Continues assim e não dês atenção aos seres que te julgam
Do lado externo da bolha.
Aqueles seres, os... os... os humanos.
Argh!




“Parabéns aos hipócritas, que além de poderosos e contarem com milhares de fiéis seguidores, não percebem que são hipócritas.”

Daniel Lemos Silva
© Maio 2008

19 Julho 2006

EN S'OUBLIANT

"C'est en s'oubliant soi-même que l'on retrouve soi-même"
(Saint François d'Assise)



Giotto di Bondone, Stigmate di san Francesco, 1300 (Louvre, Paris)

C'est un poème pour rêver
pour se retrouver dans soi
et réveiller plus de mille fois
sans lendemain, sans se léver

Le rêve est d'être à cet heure
ârreté, couché, les yeux fermés
pour n'écouter que des vagues fâchées
Ah! Le mystérieux bruit de la mer!

Retrouver les souhaits cachés
la verité, tout ce qu'on a besoin
pour mépriser les faux pas, pour être loin
Ah! Où êtes-vous les émotions jadis volées?!

Se réveiller pour ne sentir
que les premiers rayons du soleil
marcher sur le sable en oubliant du sommeil.
Ah, voilà! Adieu soucis de l'avenir!

© 2006

Esquecendo-se

"É nos esquecendo de nós que nos reencontramos a nós mesmos"
(São Francisco de Assis)

É um poema para sonhar
para se reencontrar dentro de si
e acordar mais de mil vezes
sem amanhã, sem se levantar

O sonho é de estar a esta hora
parado, deitado, os olhos fechados
para escutar somente as furiosas ondas
Ah! O misterioso barulho do mar!

Reencontrar os anseios escondidos
a verdade, tudo o que é necessário
para desprezar os erros, para estar longe
Ah! Onde estão, emoções outrora roubadas?!

Acordar para só sentir
os primeiros raios do sol
andar sobre a areia esquecendo do sono.
Ah, eis aqui! Adeus preocupações do futuro!

29 Junho 2006

CARRILHÃO


Candido Portinari, Retirantes, 1944 (MASP, São Paulo)

Pelo cacto do agudo espinho
Péla o sol ardente escaldante
Pela fresta do seco caminho
Pelados tristes vão adiante

Pelo muro de pau a pique
Pêlos do rato de ruim odor
Peleja sofrido o cacique
Pela tribo de magro amor

Pelota viva coagulada
Pelica morta encarniçada
Pela carne dura enjaulada

Pelourinho que jorra dança
Pela pétala da branca flor
Pelo pólen da esperança


©2001

10 Março 2006

LIFE IN DETAILS

The instant you celebrate the ladybird’s flight
Running away from the predator.

The instant your heart throbs when the sound of a harp
Seems to be produced by an angel.

The instant you witness a happy family
Having a picnic on the lawn of a park.

The instant you look at the mother
Holding her child passionately.

The instant you sleep and dream near furious waves
Striking against Jurassic rocks.

The instant you make love in the countryside
Hearing the singing of a cricket.

The instant you get touched by children
Playing joyfully on the sand as fine as the talc.

The instant you go for a dip in the refreshing water
When the heat is unbearable.

The instant you listen to the piano and realize
That tears are falling down unavoidably.

The instant of relief when you cry your eyes out
Suffering from the pain of love.

The instant you gawk at the sunset
Perceiving endless shades of colours.

The instant you finally find the paradise
After a long, weary and hard track.

The instant you laugh honestly
At some daft outrageous joke.

The instant you sigh deeply and smile
Reminding memorable moments with your friends.

The instant you feel the magic of life
As intensely as you can.


Pablo Picasso, Harlequin Family, 1905 (Portland Museum, Maine)

VIDA EM DETALHES

O instante em que celebras o vôo da joaninha
Fugindo do predador.
O instante em que teu coração lateja quando o som de uma harpa
Parece ser produzido por um anjo.
O instante em que testemunhas uma família feliz
Fazendo piquenique no gramado de um parque.
O instante em que olhas para a mãe
Abraçando sua criança apaixonadamente.
O instante em que dormes e sonhas perto de ondas furiosas
Chocando-se contra rochas jurássicas.
O instante em que fazes amor no campo
Ouvindo o cantar de um grilo.
O instante em que te emocionas com crianças
Brincando alegremente na areia tão fina quanto o talco.
O instante em que mergulhas na água refrescante
Quando o calor é insuportável.
O instante em que escutas o piano e percebes
Que lágrimas estão caindo inevitavelmente.
O instante de alívio quando choras desesperadamente
Sofrendo da dor do amor.
O instante em que observas estupidamente o pôr-do-sol
Notando tonalidades infinitas de cores.
O instante em que finalmente encontras o paraíso
Depois de uma longa, dura e cansativa caminhada.
O instante em que ris honestamente
De uma piada boba e infame.
O instante em que suspiras profundamente e sorris
Relembrando memoráveis momentos com teus amigos.
O instante em que sentes a magia da vida

Tão intensamente quanto possas.

29 Janeiro 2006

HOMENAGEM À SIMPLICIDADE


Claude Monet, Nymphéas, effet du soir; 1897 (Musée Marmottan, Paris)


Admiro a singeleza cintilante
das poesias sem rimas.
Pensamentos que revelam a força das palavras,
sem rodeios,
e transportam os ideais para as idéias mais elementares,
onde a felicidade
reside na pedra fundamental da estrutura
que toca,
que encosta no espaço vibrante, sensível.
Respeito os taciturnos iluminados
e os camponeses não-catedráticos
pelo mesmo entusiasmo da escrita
que estimula o bater forte do coração.
Amo as pessoas simples, diretas, sinceras e belas.